Archive for December, 2005

Quando o mundo gira mais rápido…

izabel fontes December 21st, 2005

Tem momentos que são só nossos e tudo o que eu consigo ver são os teus olhos, mesmo que os meus estejam fechados.

É
nesses momentos que eu percebo que qualquer raiva que eu sinta de você
é pequena demais para importar… e quem dera perceber isso nos
momentos em que eu realmente preciso perceber.

Natal

izabel fontes December 17th, 2005

Em
primeiro lugar, isso não é mais um post sobre o espírito de natal, a
alegria de montar uma árvore, as boas lembranças da infância ou festas
de família. Eu acho que essas coisas não existem em mim, nunca
existiram. Não existiam ao seis, não existem agora aos dezoito. Que
fique bem claro que eu não sou nenhuma militante contra as tradições ou
pertencente a uma seita estranha que odeia os ícones do cristanismo, eu
simplesmente nunca gostei do natal.
As minhas
lembranças boas das festas se resumem a ficar esperando dar meia-noite
para abrir os presentes, presentes esses que eu sempre fui escolher, ou
seja, nunca existiu papai Noel para mim. As lembranças ruins envolvem
tudo aquilo de milhares de tios, comprimentos falsos e muita comida.
Isso enquanto ainda existiam festas de família pra mim, porque de uns
anos pra cá, nem festa mais tem. Ano passado a ceia de natal da minha
casa foi lasanha congelada e sorvete.
Minhas
últimas vésperas de natal eu passei na casa de André, com a família
dele. A única coisa boa foi descobrir que o problema com festas de
natal não é nada familiar, porque na casa dos outros pode ser ainda
mais chato. Isso sem falar nas decorações, o bom gosto se esconde no
final o ano, por favor. O que diabos são aquelas bolas gigantes
horrorosas penduradas na Agamenon Magalhães?
E
o motivo desse post é bem simples: hoje eu paguei todos os meus pecados
no shopping. Foi uma das piores experiências da minha vida, sem nenhuma
sombra de dúvida. Todas aquelas pessoas indo e vindo, todo aquele clima
de consumismo e gente saindo pelas janelas. Não sei ao certo se isso
tudo é culpa do natal ou do décimo terceiro. Estou tentando acreditar
que é do décimo terceiro, caso contrário, ano que vem vou me trancar em
casa no começo de dezembro e só saio lá pro dia vinte e sete.

Felicidade clandestina*

izabel fontes December 16th, 2005

Eu
tô me sentindo tão bem que resolvi escrever sobre as pequenas
felicidades da vida, sabe? Aquelas coisas pequenas, que duram uns pouco
minutos e fazem o dia inteiro melhor (ou pelo menos as próximas horas,
até acontecer alguma coisa que estrague tudo).
São
duas horas da manhã de um quinta e eu acabei de chegar em casa. Não foi
nenhum programa fora do normal: cinema, comida e uma parada em um bar.
Mas acontece que o filme foi bom, a comida tava ótima e no tal bar as
pessoas eram agradáveis e a conversa foi boa.
Essas
coisas são todas simples, simples até demais. De tão simples se tornam
clandestinas, furtadas, inventadas. É como se o mundo inteiro fizesse
tanta confusão com essa história de felicidade que ficar contente com
tão pouco seria abuso, uma falta de perspectiva ou de inteligência.
Motivo mesmo de se envergonhar e a vergonha, como não?, anula qualquer
felicidade. Afinal, as pessoas são podres, o mundo é caótico e até a
natureza está se vingando, ou seja, qualquer pessoa inteligente vê
isso. Aprendam que só uma sorte braba ou amor recém descoberto devem
ser motivo de felicidade. Afinal, já cantavam por aí: tristeza não tem fim, felicidade sim…
Acontece
que em momentos dessas felicidades roubadas (e nas não-roubadas
também), o que se quer mais é gritar para o mundo. E pode ser por pegar
um ônibus vazio, por chegar em casa e ter um pedaço de chocolate na
geladeira, pela água quente batendo nas costas… Por qualquer coisa,
se quer mais é gritar. E que se grite.

*Felicidade clandestina é o nome de um conto de Clarice Lispector.

Das coisas importantes da vida*

izabel fontes December 15th, 2005

amor
O dia amanhaceu claro, com o céu muito limpo. Um azul desconcertante,
brilhante, ofuscante. Depois de dias de chuva, o sol claro parecia
fazer anunciações, prever fartura, premeditar felicidade.
Clarissa abriu os olhos como um bater de asas de borboleta, se espreguiçou como
um gato e sorriu como só os humanos conseguem sorrir. Só depois de
olhar tudo ao redor conseguiu lembrar que dia era. Calçou as pantufas
rapidamente e correu para abrir os embrulhos coloridos que davam uma
vida nova ao quarto. Desfez cada laço e rasgou cada pedaço de papel com
um prazer infantil, inocente. A verdade é que abrir os presentes era a
melhor parte de fazer aniversário. Depois de abrir cada embrulho, com o
cansaço e a melancolia que seguem toda grande felicidade, sentou bem no
meio do mar multicolorido que bagunçava o quarto todo. Foi então que
percebeu que, a partir daquele dia, tinha oito anos. Com todos os
significados que isso poderia ter. Tentou pensar nas coisas que não se
podia fazer com sete anos e em como seria maravilhosa a sua vida agora
que tinha crescido. Agora, que não era mais criança, precisa arrumar um
amor. Afinal, é isso que é crescer, não é?
Porém o fato é que não sabia onde procurar. Não se acha um amor em todas as esquinas, não se
pede enfiando o dedo no bolo de chocolate, não se suplica às estrelas.
E foi nesse instante que foi acomedida por uma melancolia fina, uma tristeza sem razão, uma vontade de chorar inacreditável. Não sabia ao certo porquê, mas sabia que achar o tal amor era agora fundamental e
que toda a sua felicidade futura dependia disso.
Foi então que tudo mudou, o amor desconsertou as coisas. Clarissa cresceu.pensamentos
Cada pessoa é um mundo.
Vinha sentada no ônibus perto da janela, com a cabeça encostada no vidro
gelado. Olhava fixamente para a calçada, uma visão embaçada pela
rapidez com que passava e pelas gostas de chuva que se amontoavam no
vidro. O pensamento estava distante, embalado pelo sono e pelo ócio
típico de um domingo. Fixou o pensamento nessa frase e começou um
esforço mental para se lembrar onde tinha a ouvido. Lembrava que a
tinha ouvido num momento de distração, na hora nem tinha prestado
atenção e nem sabia porque isso tinha chegado na cabeça agora. Mas os
pensamentos são sempre assim: chegam sem terem sido convidados.
Talvez tivessem dito isso na televisão, ela nunca prestava atenção na
televisão de manhã cedo, mas continuava mantendo o costume de tomar
café na frente dela. Podia ter sido naquela aula de matemática, que
estava com os olhos baixos escrevendo alguma coisa no caderno enquanto
o professor explicava o que era matriz quadrada. Então se lembrou que a
prova era na terça-feira e que não tinha estudado nada. Costumava
estudar com o Ricardo, mas depois daquela briga… Não conseguia
entender o porquê da briga, parecia tão ilógica! Mas não ia pedir
desculpas, não sem antes entender os motivos dele. Não tinha muito a
fazer, afinal, cada pessoa é um mundo.

felicidade
Disseram dia desses na televisão que a vida podia ser boa.
Era uma tarde quente de terça-feira. Uma daquelas tardes em que tudo parece
normal demais, que a rotina segue o seu curso, que o tédio roça nos
dedos. Clarices lavavam os pratos do almoço, Josés palitavam os dentes,
Marias voltavam pro trabalho, Amaros pegavam as crianças eufóricas na
escola. E num instante tudo isso parou. Marias, Josés, Clarices e
Amaros olharam para aquela telinha colorida e se perguntaram quem tinha
coragem de dizer aquilo? As notícias de guerras, de mortes, de
assaltos, de alta nos preços… tudo foi interrompido para se dizer que
a vida podia ser boa. Ninguém achava que isso podia ser verdade até
então. A vida era dura, difícil, corrida, violenta. Mas quem ousaria
duvidar da televisão?
E foi então que o mundo foi contagiado pelo
som estridente das gargalhadas, que as flores se abriram, que as
borboletas deixaram para trás suas cascas secas. De repente todo mundo
passou a se perguntar como é que vida não era boa antes. A esperança,
que em algum momento foi esquecida no fundo da caixa, voltou a flutuar
livre pelo ar e a roçar pelos rostos de Marias, Josés, Clarices,
Amaros…

*Esses textos foram escritos em junho desse ano e foram importados do blog antigo. Só não me perguntem o porquê.

Contadora de histórias.

izabel fontes December 15th, 2005

-É isso que eu quero ser quando crescer: escritora!, disse em tom de importância uma menina segura, do alto dos seus seis anos de idade.
Em
casa todo mundo achou estranho e até bonitinho essa vocação recém
descoberta. Com o incentivo curioso de pai e mãe, os livros começaram a
sair aos bolos: todos muito bem coloridos, escritos com letras
irregulares num papel ofício cortado com esmero e grampeado com
precisão nas pontas. As estórias falavam desse mundo e de mundo
imaginários, problemas reais e problemas inventados ganhavam resoluções
simples e claras. Mal nenhum acabava sem solução na útima página, não
havia desenho final sem sorrisos nos bonecos palitos.
O
tempo foi passando e a menina segura foi indo junto, a infância passou
como uma brisa leve. Veio então a garota insegura, cheia de medos e
angústias. Nem sempre os problemas tinham solução, o papel ofício foi
trocado por diários e de públicas, as histórias passaram a ser privadas.
Numa
bela manhã, a ainda menina acordou se sentindo mais mulher, o cadeado
do diário foi aberto e os textos saíram da gaveta. O sonho de ser
escritora foi abandonado e ela se descobriu uma contadora de estórias,
o que, convenhamos, é bem melhor do que ser escritora porque tem a
liberdade da não-profissão e a força da necessidade.

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