izabel fontes December 15th, 2005
amor
O dia amanhaceu claro, com o céu muito limpo. Um azul desconcertante,
brilhante, ofuscante. Depois de dias de chuva, o sol claro parecia
fazer anunciações, prever fartura, premeditar felicidade.
Clarissa abriu os olhos como um bater de asas de borboleta, se espreguiçou como
um gato e sorriu como só os humanos conseguem sorrir. Só depois de
olhar tudo ao redor conseguiu lembrar que dia era. Calçou as pantufas
rapidamente e correu para abrir os embrulhos coloridos que davam uma
vida nova ao quarto. Desfez cada laço e rasgou cada pedaço de papel com
um prazer infantil, inocente. A verdade é que abrir os presentes era a
melhor parte de fazer aniversário. Depois de abrir cada embrulho, com o
cansaço e a melancolia que seguem toda grande felicidade, sentou bem no
meio do mar multicolorido que bagunçava o quarto todo. Foi então que
percebeu que, a partir daquele dia, tinha oito anos. Com todos os
significados que isso poderia ter. Tentou pensar nas coisas que não se
podia fazer com sete anos e em como seria maravilhosa a sua vida agora
que tinha crescido. Agora, que não era mais criança, precisa arrumar um
amor. Afinal, é isso que é crescer, não é?
Porém o fato é que não sabia onde procurar. Não se acha um amor em todas as esquinas, não se
pede enfiando o dedo no bolo de chocolate, não se suplica às estrelas.
E foi nesse instante que foi acomedida por uma melancolia fina, uma tristeza sem razão, uma vontade de chorar inacreditável. Não sabia ao certo porquê, mas sabia que achar o tal amor era agora fundamental e
que toda a sua felicidade futura dependia disso.
Foi então que tudo mudou, o amor desconsertou as coisas. Clarissa cresceu.pensamentos
Cada pessoa é um mundo.
Vinha sentada no ônibus perto da janela, com a cabeça encostada no vidro
gelado. Olhava fixamente para a calçada, uma visão embaçada pela
rapidez com que passava e pelas gostas de chuva que se amontoavam no
vidro. O pensamento estava distante, embalado pelo sono e pelo ócio
tÃpico de um domingo. Fixou o pensamento nessa frase e começou um
esforço mental para se lembrar onde tinha a ouvido. Lembrava que a
tinha ouvido num momento de distração, na hora nem tinha prestado
atenção e nem sabia porque isso tinha chegado na cabeça agora. Mas os
pensamentos são sempre assim: chegam sem terem sido convidados.
Talvez tivessem dito isso na televisão, ela nunca prestava atenção na
televisão de manhã cedo, mas continuava mantendo o costume de tomar
café na frente dela. Podia ter sido naquela aula de matemática, que
estava com os olhos baixos escrevendo alguma coisa no caderno enquanto
o professor explicava o que era matriz quadrada. Então se lembrou que a
prova era na terça-feira e que não tinha estudado nada. Costumava
estudar com o Ricardo, mas depois daquela briga… Não conseguia
entender o porquê da briga, parecia tão ilógica! Mas não ia pedir
desculpas, não sem antes entender os motivos dele. Não tinha muito a
fazer, afinal, cada pessoa é um mundo.
felicidade
Disseram dia desses na televisão que a vida podia ser boa.
Era uma tarde quente de terça-feira. Uma daquelas tardes em que tudo parece
normal demais, que a rotina segue o seu curso, que o tédio roça nos
dedos. Clarices lavavam os pratos do almoço, Josés palitavam os dentes,
Marias voltavam pro trabalho, Amaros pegavam as crianças eufóricas na
escola. E num instante tudo isso parou. Marias, Josés, Clarices e
Amaros olharam para aquela telinha colorida e se perguntaram quem tinha
coragem de dizer aquilo? As notÃcias de guerras, de mortes, de
assaltos, de alta nos preços… tudo foi interrompido para se dizer que
a vida podia ser boa. Ninguém achava que isso podia ser verdade até
então. A vida era dura, difÃcil, corrida, violenta. Mas quem ousaria
duvidar da televisão?
E foi então que o mundo foi contagiado pelo
som estridente das gargalhadas, que as flores se abriram, que as
borboletas deixaram para trás suas cascas secas. De repente todo mundo
passou a se perguntar como é que vida não era boa antes. A esperança,
que em algum momento foi esquecida no fundo da caixa, voltou a flutuar
livre pelo ar e a roçar pelos rostos de Marias, Josés, Clarices,
Amaros…
*Esses textos foram escritos em junho desse ano e foram importados do blog antigo. Só não me perguntem o porquê.