Centro do mundo

izabel fontes January 1st, 2006

Nenhuma outra cidade tem um centro comercial como o de Recife.
Ruas
estreitas, sempre formigando de gente. Lá, todos os sentidos se
misturam e passear pelo mercado São José, pela rua da Imperatriz, pela
rua Velha ou da Palma acaba se transformando numa espécie de transe,
embalado pelos cheiros das ervas -que queimam sem parar naqueles
incenssários de barro- e pelo calor dos encontrões inevitáveis. Em
nenhum outro lugar se encontra santos católicos e orixás numa mesma
barraquinha, a erva que “cura chulé, mal olhado, indigestão e artrite”,
a bijuteria da novela e tudo por noventa e nove centavos.
Mas
o tempero mais forte daquelas ruelas do século passado são as pessoas,
que parecem ter saído de quadros, fotografias, romances, filmes… de
qualquer lugar, menos da realidade nossa de cada dia. Pessoas sem
dentes, com chapéus antigos e roupas coloridas, sempre espiando do alto
de toda a sabedoria, com seus olhos grandes e brancos. Sempre
simpáticas e sorridentes, seja para vender, seja para passar o tempo ou
só para lembrar. E lembranças é o que não falta por lá. Retratos de uma
época que já passou e co-existe na simpatia e sorrisos dessa gente.
Hoje
tudo estava diferente. Não tinha gente, não tinha tônicos milagrosos
para vender. Deserto, absolutamente deserto. Os casarões antigos, hoje
solitários, tornaram-se decadentes em sua imensidão. As ruas estreitas
e de pedras, tornaram-se esburacadas e sem graça.
Quase pensei que ali não era o centro do mundo, foi então que lembrei que segundas-feiras sempre existirão…

8 Responses to “Centro do mundo”

  1. Hugo Rafaelon 02 Jan 2006 at 4:46 am

    Isso
    me fez lembrar um Hugo com 15 anos maravilhado com o centro da cidade
    em paralelo com um Hugo pós reveillon-perfeito nas ruas procurando
    sorvete. Rua de-ser-ta.
    =)
    Seus textos estão na melhor fase que já vi, Bel.

  2. --saffon 02 Jan 2006 at 2:48 pm

    … em compensação, a rua da Carioca estava lotada. Todo mundo descontando o vale-presente com desconto.

    Gostei do seu texto, um dia conhecerei este mercado são josé. Nem que seja para poder tirar os sapatos sem susto. :)

  3. Clariceon 03 Jan 2006 at 8:37 am

    ah, eu adoro o centro do recife. não dá pra passar por ali sem se admirar com alguma novidade. =)

  4. Luaon 06 Jan 2006 at 2:35 pm

    existem segundo dia do ano, você quis dizer, não, beibe?
    :p

  5. Anonymouson 06 Jan 2006 at 2:47 pm

    *existe

  6. Eduardoon 08 Jan 2006 at 5:36 pm

    Adorando o novo reino… tão antigo.
    Escreva mais, vejo que em cada linha tem você.

    Consegui parar de fumar cigarro…
    O
    problema de parar um vício, é que hoje ou mais tarde sempre acaba-se
    provando um pouco mais, e esses prazeres sempre voltam com um gosto
    mais forte.

    :*

    *imagina… te comparar a um cigarro. O.o

  7. Lucas Hackon 09 Jan 2006 at 2:27 pm

    engraçado,
    o centro de florianópolis é uma procissão dos sem-memória, caminhos
    intricados que levam para o mesmo calçadão ladrilhado com pedrinhas
    brancas-e-pretas, a aorta que irriga a parte mais movimentada da cidade.

    todas
    as lembranças e sensações meio que se perdem, enfiadas em prédios altos
    que engolem o céu, e lojas modernas aproveitando as fachadas das
    construções antigas.

    vai ver, eu sou mesmo é de olhar todo o burburinho de longe, daqui do outro lado da ponte. =]

    saudades, querida. =***

  8. 1loanson 02 Sep 2008 at 9:41 pm

    wow :-)
    its very interesting point of view.
    Good post.
    realy gj

    thank you ;)

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