reino da insônia

August 15th, 2006

Queijo de copo e toalha molhada.

Posted by Izabel in diário    
Você
foi embora numa manhã quente e ensolarada, como que para quebrar todos
os clichês de despedidas frias. Saiu também sorrindo, com poucas
certezas, como quem vai comprar pão e já volta. Ao me ver só, caminhei
lentamente pela casa, abrindo as janelas e recolhendo restos seus.

Em
uma caixa grande, joguei os teus pedaços: porta-retratos, cartas
antigas, ímãs de geladeira, souveniers. Fechei tudo com fita adesiva e
tentei esquecer em um canto. Mas você persistiu, fez questão de se
misturar em mim, nas minhas coisas, músicas, sonhos. Abri a caixa e me
fechei, afundando numa cadeira, exausta.

O passar dos dias foi
mais lento do que o normal, acelerou aos poucos e, enfim, correu. Numa
noite fria, me dei conta da sua ausência em mim. Procurei, me estranhei
e só então entendi. A verdade, meu bem, é que tenho medo de lhe deixar
ir. De não ter mais os seus sinais e o meu sofrimento. Num ato de
desespero abri a caixa nunca fechada. Procurei a dor da sua presença,
das nossas memórias, do meu passado. Não achei, me peguei sorrindo. Me
vi só.

Andei pela casa, solitária. Lembrei das brigas e joguei
toalhas no chão, tirei o queijo de copo da geladeira, recoloquei tudo
no lugar, forjei você como pude. Não adiantou.

August 14th, 2006

Para frente.

Posted by Izabel in diário    
Ela
vai mudar, vai crescer, não se reconhecer, vai sentir nojo do que já
foi. Vai cortar o cabelo, mudar de namorado, trocar o sotaque. Vai se
olhar no espelho e sentir orgulho, encurtar a saia e perder a vergonha.
Vai se arrepender, voltar um pouco atrás. Vai se embriagar, tentar
fugir.

Ela vai, sobretudo, não saber onde ir e paralisar no tempo.

August 1st, 2006

Da arte dos encontros.

Posted by Izabel in diário    
Sempre
me senti dona das madrugadas. Do silêncio, da calmaria, do vento frio,
das estrelas, da escuridão, da sombra dos postes, do barulho dos poucos
carros, das ruas vazias de gente. A falta de sono me deixa construir
meu próprio tempo, fugir da correria do dia, respirar fundo, me visitar
e afundar na minha melancolia.

Mas descubro que, assim como sou
rainha da minha madrugada, existem reis e acabo vendo meu reino sendo
dividido. Aos poucos, sutilmente, sem querer. As solidões se encontram
e a madrugada acaba passando do silêncio ao samba, da calmaria às
risadas, o vento frio vira brisa, os barulhos dos carros passam
despercebidos. Sobram as estrelas, as sombras, as ruas vazias e a
escuridão.

E é assim que a madrugada passa em ritmo de samba.

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