Queijo de copo e toalha molhada.
foi embora numa manhã quente e ensolarada, como que para quebrar todos
os clichês de despedidas frias. Saiu também sorrindo, com poucas
certezas, como quem vai comprar pão e já volta. Ao me ver só, caminhei
lentamente pela casa, abrindo as janelas e recolhendo restos seus.
Em
uma caixa grande, joguei os teus pedaços: porta-retratos, cartas
antigas, ímãs de geladeira, souveniers. Fechei tudo com fita adesiva e
tentei esquecer em um canto. Mas você persistiu, fez questão de se
misturar em mim, nas minhas coisas, músicas, sonhos. Abri a caixa e me
fechei, afundando numa cadeira, exausta.
O passar dos dias foi
mais lento do que o normal, acelerou aos poucos e, enfim, correu. Numa
noite fria, me dei conta da sua ausência em mim. Procurei, me estranhei
e só então entendi. A verdade, meu bem, é que tenho medo de lhe deixar
ir. De não ter mais os seus sinais e o meu sofrimento. Num ato de
desespero abri a caixa nunca fechada. Procurei a dor da sua presença,
das nossas memórias, do meu passado. Não achei, me peguei sorrindo. Me
vi só.
Andei pela casa, solitária. Lembrei das brigas e joguei
toalhas no chão, tirei o queijo de copo da geladeira, recoloquei tudo
no lugar, forjei você como pude. Não adiantou.