izabel fontes February 28th, 2007
Naquela tarde acordei decidido a chorar. Havia anos que minhas dores só conheciam o caminho de entrada e se perdiam nos labirintos do corpo. Ganhava peso à medida que emagrecia visivelmente. Veja bem, não é que eu fosse um ser humano de grandes mágoas, perdas ou raivas, é somente que carregava as minhas como ninguém mais: sem saÃda.
Mas naquele dia, estava decidido, iria mudar. Tomei um banho quente, deixando descer pelo ralo todos os meus restos de felicidade, e sentei na cama..
O primeiro passo, sabia, era abandonar o meu velho hábito de acreditar no mundo depois da porta da sala. Em seguida, comecei um esforço para lembrar de tudo aquilo que tentei por anos esquecer. Todas as colheres caÃdas atrás do armário branco da cozinha da minha infância, condenadas ao eterno esquecimento. O dia em que meu pai foi embora e levou junto planos ainda não criados para o meu futuro.Todos os livros que não lerei e as pessoas maravilhosas que nunca conhecerei.
Não podia. Nunca consegui me olhar de forma direta o suficiente. Peguei um espelho e tentei me olhar nos olhos, como última possibilidade. Olhar morto, seco. Olhei mais. Me sentia cada vez mais pesado, cada vez mais longe da saÃda..
Tocou a campainha. Era o mundo lá fora tentando provar sua existência. Funcionou. Deixei as lágrimas para depois.
izabel fontes February 27th, 2007
Batidas de teclado, gente falando ao telefone, telefone tocando. Eu só finjo estar aqui. Cabeça lá longe… ponderando passado, presente e futuro, enquanto olho fixamente para uma folha que deveria ler. Fico com o que sou e tenho, dividida sobre o que quero.
Dar um tempo de blog?
izabel fontes February 23rd, 2007
Quando uma grande rede de atacados chegou à cidade, muita propaganda foi feita. Rádio, outdoor, televisão, boca a boca, carro de som.
Era um pouco de tudo, para todos, diziam. Roupas, comidas, móveis, brinquedos, eletrodomésticos… Não havia nada que você pudesse precisar e não houvesse lá. A menina viu e achou tudo muito bom, quase não cabia em si, de alegria.
Num sábado à tarde, chegou muito calma, com olhos de espanto e se sentindo ainda menor, no meio daquela grandeza toda iluminada. Procurou um vendedor e perguntou:
-Moço, onde fica, por favor, a prateleira com a felicidade?
izabel fontes February 22nd, 2007
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( Mais tirinhas, aqui)
izabel fontes February 22nd, 2007
Maria Clara conheceu João no dia em que o circo chegou na cidade. Acabou despertando do tédio que sentia da vida com um susto. Era um cabelo muito cacheado e preto, brilhava refletindo o sol.
João não era bonito e vestia uma roupa que a menina achou ridÃcula, colorida, com brilho demais. Deve ser por isso que era impossÃvel não olhar.
No dia seguinte, Maria Clara, que detestava circo, se viu embaixo da lona colorida. No próximo dia também e em todos os seguintes. Continuava sem gostar de circo, mas também continuava impossÃvel não olhar.
Durante todo o espetáculo, Maria Clara dormia. Quando João entrava com suas facas, Maria Clara sonhava.