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( Mais tirinhas, aqui)
Maria Clara conheceu João no dia em que o circo chegou na cidade. Acabou despertando do tédio que sentia da vida com um susto. Era um cabelo muito cacheado e preto, brilhava refletindo o sol.
João não era bonito e vestia uma roupa que a menina achou ridícula, colorida, com brilho demais. Deve ser por isso que era impossível não olhar.
No dia seguinte, Maria Clara, que detestava circo, se viu embaixo da lona colorida. No próximo dia também e em todos os seguintes. Continuava sem gostar de circo, mas também continuava impossível não olhar.
Durante todo o espetáculo, Maria Clara dormia. Quando João entrava com suas facas, Maria Clara sonhava.
Mas poderia ser.
Posso dizer que já sofri incontáveis metamorfoses musicais, ao longo da vida. Já gritei por Chiquititas, já quis esmurrar gente ouvindo Nirvana. A verdade é que sempre ouvi aquilo que gostaria de ser ou aquilo que sentia. Eu não escolho as minhas músicas, elas me escolhem.
Acontece que, como um bicho que troca de pele, alguma coisa permanece, vai resistindo. E é assim com vários cantores/compositores. Gente que deve me acompanhar desde antes de nascer. Que estava naquele almoço chato de domingo, que era pano de fundo no discurso de aniversário da avó, que embalava meu sono, que meus pais escutavam bêbados na última altura.
Gal Costa é um pouco mais. Aquela baiana representa a minha saudade da época que não vivi, da geração que não sou, da vida que não tive. Fico é achando tudo muito chato por aqui, pensando mesmo é que os deuses erraram nos cálculos, na hora de me botar no mundo.