Como não?
izabel fontes March 24th, 2007
Quem misturou a massa de que Alice foi feita acabou exagerando na alegria. De propósito ou sem querer, o padeiro de fazer gente esqueceu de pôr um pouco de dor, uma pitada de angústia, duas colheres de ansiedae e três xÃcaras cheias de inquietação. O erro na receita passou despercibo e a menina foi posta na terra assim, desse jeitinho. Depois não dava para desfazer.
Por não saber fazer outra coisa, Alice estava mesmo era sempre mostrando os dentes, franzindo a testa, criando dobrinhas do lado dos olhos e abrindo dois pequenos buracos nas bochechas, que eram melhores do que chocolate e ficavam no mesmo nÃvel dos sonhos. Todo mundo percebia e comentava muito, não tinha como não perceber, não tinha como não comentar: aquela menina era mesmo sorridente.
No dia em que levou uma queda bem no meio do ônibus lotado, levantou rindo da história que teria para contar. Depois que Mário a beijou, assim, sem avisar e sem saber que era a primeira vez que ela experimentaria aquela cosquinha na barriga, Alice riu da sua surpresa. Nas horas que sentia o chão ir embora embaixo dos pés e queria mesmo era chorar, a menina-mulher tinha os acessos de riso mais fortes e quase rolava no chão, achando realmente engraçada aquela dor no peito sem motivo, que acabava indo embora sem hesitar. E a vida ia vai muito bem, obrigada, podia ser diferente?