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Prison break

izabel fontes May 4th, 2007

Pela cidade cortada de rios e pontes, sinto frio. Frio justo na veneza brasileira, de sol pra mais de quarenta graus e calor flutuando no ar, vindo até das pessoas. O tempo parece brincar comigo, descontrolado, foge. E chove. Antes de qualquer coisa, chove. Estamos em maio. Perto do equador, faz frio em maio.

Não é frio comum. Talvez seja só fruto do abismo que as coisas acabam caindo, por esses dias corridos.

Enquanto isso, esfrego bem as duas mãos e coloco no rosto. Procuro em mim o calor que falta ao redor. Tentando organizar uma fuga, um descanso ou uma pausa. Recolhendo os ditongos perdidos nas frases, nas minhas frases. Ou quem sabe nos sonhos.

A menina das tranças.

izabel fontes May 4th, 2007

Aline tinha um cabelo cor de palha, muito cheio e com cachos suaves.

Quando a menina andava, aquela moldura dourada balançava e balançava, perfumando tudo com um cheiro de alfazema. Todos os dias antes de ir para a escola, ela fazia duas tranças muito apertadas, puxadas para trás e que iam até abaixo da cintura.

Na sala abafada da terceira série, Aline sentava na quarta fila, cadeira do meio. Logo atrás sentava um menino sardento e de aparelhos nos dentes. Todos os dias, João puxava as tranças da menina, que olhava para trás com cara de raiva, ao que o menino respondia com um sorriso luminoso.

Numa terça-feira, ele não estava na sua cadeira de costume. Ela o procurou com os olhos e o achou sentado atrás de Marta. João beliscava Marta, que virou irritada e recebeu de volta um sorriso. Aline ficou petrificada, disse que não se sentia lá muito bem e foi embora mais cedo. Chegou em casa, pegou a tesoura enferrujada de costura, parou na frente do espelho, segurou as tranças com força e cortou as duas pela raiz.

Na manhã seguinte, na escola, sentou no lugar de costume.

Bem na metade de uma equação de segundo grau, sentiu uma bola de papel bater exatamente no meio da sua nuca. Virou para trás com um sorriso no rosto, João, desconsertado com o sorriso, somente conseguiu perder suas sardas no meio de tanto vermelho.