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tristeza

izabel fontes May 13th, 2007

Nos tempos chuvosos de maio, o céu vai caindo aos pouquinhos. Mas como tal fenômeno só acontece em dias de temporal, é o material cinzento e frio que acaba despencando. Quase ninguém percebe porque os pedacinhos de céu se disfarçam muito bem no meio da água.

A pior parte não é os furos que ficam lá por cima, que aquela imensidão toda é muito boa nisso de se renovar. O problema é que os pedaços inventam de grudar na gente e vai fazendo a gente ficar também um pouco cinzento e um pouco frio. Pouca gente sabe, mas é isso que é tristeza.

Passeando livre pelas bandas de cá, a tristeza vai procurando seu destino aos poucos, meio às cegas, tentando ficar onde pode. Um amor sem espelho aqui, um desencanto no fundo do olho, um infarte, um sarampo mal cuidado, ausência de dinheiro, um filme triste ou motivo nenhum. A danada brinca com os silêncios, revira as almas, troca os significados, desprende as cores e mistura as idéias. E não existe vacina, nem remédio, nem política preventiva. Fuga certa no mundo não há. A tal da tristeza é destino certo de toda gente, não em todas as chuvas de maio, só em algumas, que em outras o nosso azul é tão forte que os pedaços cinzentos do céu não grudam, escorrem e derretem pelas ruas.

A sorte que existe é que nem só de dias chuvosos é feito maio. Burlando a ordem natural das coisas, o sol sempre acaba aparecendo e consegue brilhar um pouco antes de ser descoberto. E esse pouco é suficiente, sempre é, por mais que algumas pessoas não percebam. Quando não percebem, coitadas, é que ficaram cinzentas demais e para fazer a restauração da aquarela de cores antigas dá um trabalhão. Nada que não possa ser feito, é lógico, mas é preciso mais do que pincéis e alguma técnica.