Nunca é demais

“Úrsula se perguntava se não era preferível se deitar logo de uma vez na sepultura e lhe jogarem a terra por cima, e perguntava a Deus, sem medo, se realmente acreditava que as pessoas eram feitas de ferro para suportar tantas penas e mortificações; e perguntando e perguntando ia atiçando a sua própria perturbação e sentia desejos irreprimíveis de se soltar e não ter papas na língua como um forasteiro e de se permitir afinal um instante de rebeldia, o instante tantas vezes desejado e tantas vezes adiado, para cortar a resignação pela raiz e cagar de uma vez pra tudo e tirar do coração os infinitos montes de palavrões que tivera que engolir durante um século inteiro de conformismo.

- Porra! - Gritou.
Amaranta, que começava a colocar a roupa no baú, pensou que ela tinha sido picada por um escorpião.
- Onde está? - Perguntou alarmada.
- O quê?
- O animal! - esclareceu Amaranta
Úrsula pôs o dedo no coração.
- Aqui - disse.”

Posted by izabel fontes on July 31st, 2007 | Filed in mural |


2 Responses to “Nunca é demais”

  1. Andréa Says:

    %$&*#@§

    Estou gritando junto com Úrsula… Mas ainda estão em mim vestígios de censura!

  2. izabel fontes Says:

    Esqueci de dizer: o texto é do Garcia Marquez, no livro da minha vida, digo, em cem anos de solidão.

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