Archive for August, 2007

Time goes by

izabel fontes August 29th, 2007

O Saliel vive falando de invenções incríveis, que já deveriam ter sido inventadas há muito, para distribuir sorrisos pelo mundo. Um celular que só dá boas notícias está entre as preferidas do amigo carioca.

O meu invento dos sonhos é um controle remoto da vida. A justificativa não é que eu queria simplesmente adiantar o tempo de vez em quando, para diminuir a ansiedade, ou pausar os segundos, para prolongar as alegrias. É que o presente para mim é pouco, muito pouco, quase insuportavelmente pouco. Eu quero mais.

Às vezes sinto uma saudade de doer das coisas que ainda não aconteceram, das fases da vida que ainda não vivi. Não é questão de sonhar com o futuro perfeito, é alguma coisa mais sutil. É querer o cotidiano de amanhã, que não vai ser perfeito, mas que vai ser meu. Com os problemas e tudo. Do mesmo jeito, meu peito aperta de ver em filmes tempos que não foram meus, mas que bem poderiam ter sido. Nesse caso, a dorzinha é ainda maior, porque tempo perdido é para sempre perdido.

É querer o de ontem, o de hoje e o de amanhã no agora, se alternando. Quero ir para dez anos daqui, só para experimentar e ver como vai ser. Depois volto para cá e, quando a saudade bater, dou um pulinho nos bailes de vestido rodado dos anos cinqüenta.

Derrama, senhor!

izabel fontes August 28th, 2007

E aí que o período da faculdade acabou oficialmente e o que sobrou foram os trabalhos finais para gente se orgulhar ou morrer de vergonha.

Nesse semestre, rádio foi o tema da vez e pagamos duas cadeiras, uma prática e uma teórica. Deixo então para vocês, como prêmio por aguentarem meus estresses, o trabalho final da cadeira prática. O programa tem duração de 13 minutos e… Ah! Não vou falar mais nada, confiram!

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(Obrigada, pela ajuda, Paulo. Deus lhe pague.)

Mais uma vez insônia

izabel fontes August 27th, 2007

A cada noite que passo ao lado dela, sinto que é a última. Não é que ela não me ame, que me minta, isso não, ela é sincera em cada pedaço seu: me ama com toda a intensidade que é capaz. Ñão é que eu queira mais, que ache isso pouco, tanto amor às vezes até me sufoca. O que acontece é que nada nela foi feito para durar, ela nasceu para se desfazer e mudar de figura.

Por isso não durmo, a observo nos seus sonhos, respiro a sua respiração, tentando antecipar o momento do fim nos meus próprios devaneios. Quando ela finalmente me deixar, estarei preparado e sentirei que ela o fez na hora certa, que o fim é, na verdade, um favor para nós dois. Falarei aos quatro ventos que já não era feliz a seu lado, que já não sonhava mais e, então, todos concordarão comigo e entenderão o meu alívio, afinal, o que é um homem sem sonhos?

A cada noite, invadido pelo medo de não mais a ter, ensaio mentalmente o minuto exato da despedida. Imagino as expressões dela, sempre grandiosas, expressões de atriz de cinema mudo, que fala com as sobrancelhas, com cada ruga na testa, com os olhos. Vou então arrumando as palavras que hei de ouvir, as suas justificativas. Prevejo também a dor que ela irá sentir por me decepcionar, o seu desespero. Mas no momento do fim, sei que as lágrimas só existirão nos olhos dela, nos meus só haverá espaço para as manchas roxas dessas noites que não dormi.

Jardim de infância

izabel fontes August 24th, 2007

Não é de hoje que falam que a adolescência é uma fase difícil. Eu, eterna adolescente que sou, achei que isso de dificuldade era somente para quem sente na pele. É que isso de estar perdida em indefinições, oscilando entre infância e idade adulta, é muito difícil, minha gente. E os hormônios? De tanto que o tema rende, deixo até para outro post. Hoje, no entanto, pude provar por a+b o contrário: adolescência difícil mesmo é pra os outros.

Como vocês sabem, dou aulas de textos lá no Coque. Uma vez por semana, uns doze meninos e meninas, de 14 a 20 anos, se reúnem e a gente brinca com as palavras. Ler, interpretar, significar não é nada simple: exige prática, paciência e boa vontade. Meus meninos estão aprendendo isso aos poucos e, com um empurrãozinho aqui e outro ali, persistem. Mas às vezes acordam virados.

Às vezes aconteceu de ser hoje. Hoje era dia de sair do Coque e ir para Peixinhos, uma outra comunidade carente que tem uma biblioteca linda de morrer. A Biblioteca Multicultural é referência no estado e a gente achou bom que os meninos vissem um exemplo do que a gente tenta fazer que deu certo (e muito!).

Oito e meia da manhã, eu chego no NEIMFA (ONG onde acontecem as aulas) e já está todo mundo esperando. Começo a estranhar, mal acostumada que estou com os atrasos deles. Quando olho melhor: todos estão muito bem arrumados. Flávia passou maquiagem, deu escova nos cabelos e usava salto alto. Clécio estava de calça e bermuda. Todos tiravam fotos com celular e faziam muita pose. Mal consigo dizer bom dia e lá em Jonatas, correndo:

- Oxe, Bel, ninguém me avisou que era pra vir na beca. Eu tô de chinelo.

- Mas não precisa, Jonatas, lá é que nem aqui. Não tem nada demais.

Eu nem consigo escutar o resmungo do menino, porque exatamente nessa hora todos começam a falar ao mesmo tempo e quando dou por mim, está Jonatas correndo atrás de Geovana com um caderno na mão, apontado para a cara da amiga. Eu respiro fundo e sento meio desanimada.

Nove horas da manhã e nada do ônibus, meu celular toca e o aviso: vai atrasar um pouco, mas já sairam da Universidade. Quando eu olho pra frente, estão todos os dez meninos correndo pra um lado e pro outro, gritando ofensas e se batendo. Era brincadeira eu sabia e continuo sabendo, mas nessa hora eu precisei respirar e inspirar umas dez vezes, tentando mentalizar algum mantra budista.

O ônibus finalmente chegou, todos entraram (correndo e empurrando, lógico) e foram logo para os últimos bancos. Juro que eles conseguiram gritar e fazer bagunça durante todo o trajeto e não gastaram as energias suficientes.

Para encurtar a história, quando chegou lá, os meninos surtaram. Sairam subindo e descendo escada, pularam no balanço (e, acreditem, eles são bem grandinhos) e absolutamente não prestaram atenção em nada que Daniel, que nos recebeu, falava. Na hora de ir embora a gente teve que resgatar um ou outro que tinham fugido para ver o ensaio do Magêlolê (balé de dança afro).

O que eu fiz para merecer esses dias de santo virado deles? É que os meus dias de pé esquerdo são bastam pra me deixar louca, imagina isso também. E no caminho aqui pro estágio, no ônibus, fui pegar o celular na bolsa e achei dois aviãozinhos de papel que sei lá como foram passear junto com meus livros, cadernos, mp3, carteira…

Culinária

izabel fontes August 22nd, 2007

Nesses dias de sol morno, eu não sinto calor, mas sinto as coisas queimando aos pouquinhos. Como numa panela de pressão, vou deixando tudo cozinhar, liberando as dores pequenas de cada dia junto com o vapor e o seu assobio suave, compassado. Uma pitada disso, uma outra pitada daquilo e os dias correm bem temperados.

Nos dias do sol morno de inverno, a noite vem com o vento e as estrelas brincam de se esconder entre as nuvens, apagando o brilho como quem tampa a respiração. E eu? Eu cedo, sempre. E tenho minhas pálpebras coladas com o cloro da piscina, com fragmentos dos filmes, com pedaços de memórias alegres. Enfim, meus olhos pesam com o cansaço das férias, que foram feitas para se saborear aos pouquinhos, sem preocupação. E assim sigo.

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