izabel fontes August 24th, 2007
Não é de hoje que falam que a adolescência é uma fase difícil. Eu, eterna adolescente que sou, achei que isso de dificuldade era somente para quem sente na pele. É que isso de estar perdida em indefinições, oscilando entre infância e idade adulta, é muito difícil, minha gente. E os hormônios? De tanto que o tema rende, deixo até para outro post. Hoje, no entanto, pude provar por a+b o contrário: adolescência difícil mesmo é pra os outros.
Como vocês sabem, dou aulas de textos lá no Coque. Uma vez por semana, uns doze meninos e meninas, de 14 a 20 anos, se reúnem e a gente brinca com as palavras. Ler, interpretar, significar não é nada simple: exige prática, paciência e boa vontade. Meus meninos estão aprendendo isso aos poucos e, com um empurrãozinho aqui e outro ali, persistem. Mas às vezes acordam virados.
Às vezes aconteceu de ser hoje. Hoje era dia de sair do Coque e ir para Peixinhos, uma outra comunidade carente que tem uma biblioteca linda de morrer. A Biblioteca Multicultural é referência no estado e a gente achou bom que os meninos vissem um exemplo do que a gente tenta fazer que deu certo (e muito!).
Oito e meia da manhã, eu chego no NEIMFA (ONG onde acontecem as aulas) e já está todo mundo esperando. Começo a estranhar, mal acostumada que estou com os atrasos deles. Quando olho melhor: todos estão muito bem arrumados. Flávia passou maquiagem, deu escova nos cabelos e usava salto alto. Clécio estava de calça e bermuda. Todos tiravam fotos com celular e faziam muita pose. Mal consigo dizer bom dia e lá em Jonatas, correndo:
- Oxe, Bel, ninguém me avisou que era pra vir na beca. Eu tô de chinelo.
- Mas não precisa, Jonatas, lá é que nem aqui. Não tem nada demais.
Eu nem consigo escutar o resmungo do menino, porque exatamente nessa hora todos começam a falar ao mesmo tempo e quando dou por mim, está Jonatas correndo atrás de Geovana com um caderno na mão, apontado para a cara da amiga. Eu respiro fundo e sento meio desanimada.
Nove horas da manhã e nada do ônibus, meu celular toca e o aviso: vai atrasar um pouco, mas já sairam da Universidade. Quando eu olho pra frente, estão todos os dez meninos correndo pra um lado e pro outro, gritando ofensas e se batendo. Era brincadeira eu sabia e continuo sabendo, mas nessa hora eu precisei respirar e inspirar umas dez vezes, tentando mentalizar algum mantra budista.
O ônibus finalmente chegou, todos entraram (correndo e empurrando, lógico) e foram logo para os últimos bancos. Juro que eles conseguiram gritar e fazer bagunça durante todo o trajeto e não gastaram as energias suficientes.
Para encurtar a história, quando chegou lá, os meninos surtaram. Sairam subindo e descendo escada, pularam no balanço (e, acreditem, eles são bem grandinhos) e absolutamente não prestaram atenção em nada que Daniel, que nos recebeu, falava. Na hora de ir embora a gente teve que resgatar um ou outro que tinham fugido para ver o ensaio do Magêlolê (balé de dança afro).
O que eu fiz para merecer esses dias de santo virado deles? É que os meus dias de pé esquerdo são bastam pra me deixar louca, imagina isso também. E no caminho aqui pro estágio, no ônibus, fui pegar o celular na bolsa e achei dois aviãozinhos de papel que sei lá como foram passear junto com meus livros, cadernos, mp3, carteira…
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