Archive for November 26th, 2007

Saudade

izabel fontes November 26th, 2007

De tanto dizer adeus, até posso dizer que me acostumei com os vazios que vão tomando conta de mim quando todas as ausências se fazem sentir. Os cheiros se apagam e as imagens, gestos e olhares de um tempo que já passou vão se transformando em memória.

Nos dias de faxina e durante as resoluções de final de ano, quando os restos das nossas dores e de nossos dias precisam dar espaço para os novos começos, sempre dou de cara com objetos esquecidos pelo passado que não consegui abandonar. São restos de mim e restos das pessoas que passaram por mim. É uma foto com o cabelo grande, uma carta amarelada, um desenho com as bordas amassadas, um bicho de pelúcia mofado ou um perfume que nunca mais usei.

Certas coisas, é melhor mesmo que só existam envoltas pelas nuvens da memória e o destino para essas relíquias só pode mesmo ser uma gaveta antiga, uma quina de armário ou uma caixa fechada, nunca uma navalha ou uma lata de lixo. É que o cheiro de naftalina torna tudo um pouco mais suportável.

Para não dizer que não falei das flores

izabel fontes November 26th, 2007

De tempos em tempos, não consigo escrever. Eu nunca soube lidar direito com a ausência de palavras tão característica dos tempos em que a vida se faz urgente e a gente vai deixando o hábito de caminhar entre as trevas para depois, torcendo que o depois nunca chegue de fato.

Escrever é uma obrigação silenciosa de se auto-analisar, se auto-conhecer falando em terceira pessoa ou falar de si próprio contando vidas alheias imaginárias. Quando não escrevo, não sei direito de mim. Mas às vezes não consigo juntar três palavras para formar uma frase, qualquer ela que seja, e me pego formando várias, em uma justificativa pública para mim mesma. E é disso que é feito esse texto.