Archive for December, 2007

2008

izabel fontes December 30th, 2007

Eu não lembro do último sonho que tive, não lembro sequer da última vez que lembrei de ter sonhado durante o sono (porque acordada eles vêm e vão o tempo inteiro).

Pensando nisso, meu desejo para o ano que já tá batendo na porta não é que todos os meus (e os seus) sonhos se realizem, é somente que possamos sonhar. E é isso. Com o pé direito, pulando as sete ondas, comendo lentilha e com caroço de uva na carteira.

Esconderijo

izabel fontes December 15th, 2007

Quando eu tinha 3 anos e alguns meses, a minha irmã nasceu.

Eu não lembro bem dos momentos antes do nascimento, da barriga grande da minha mãe, das atenções que meu pai deu a alguém que ainda nem existia. Mas eu lembro bem do dia que ela chegou em casa: um bebê grande, com muito cabelo e colorindo tudo ao redor de rosa.

Na ficção da minha vida, a minha irmã chegou trazendo silêncio em casa. Era preciso sempre tomar muito cuidado e andar somente com a ponta dos pés. Hoje a gente já sabe, pode cair o mundo que Luíza não vai acordar. É que poucas coisas ela faz tão bem quanto dormir. Mas naquela época ninguém sabia disso e era preciso não interromper os sonhos de quem ainda estava aprendendo o que é o mundo, para depois poder aprender como é que se sonha.

Em um desses dias silenciosos, decidi que talvez precisasse de um pouco de som. Decidida a nunca mais voltar, do alto dos meus quase 4 anos, corri para o quintal com cheiro de goiaba da minha casa. Meus pais, ao me acharem horas depois, encolhida dentro de uma caixa de papelão e abraçada com meu cachorro de pelúcia, tiraram uma foto e atribuiram tudo ao ciúme natural de quem deixa de ser filha única assim, sem aviso prévio e com pouca idade.

Mas eu insisto em dizer: a fuga era somente porque eu não conseguia mais lidar com ausência tão grande de ruídos.

16 anos e alguns meses depois, eu aprendi a lidar com os possíveis silêncios que têm existência necessária no meio da convivência. Hoje em dia, sem dizer palavra, torço, cruzo os dedos, assisto as descobertas boas e só quero o bem. Entretanto, como era de se esperar, dentre todas as lacunas de som, são as de sofrimento as mais difíceis. Mas não o meu sofrimento, que com a minha dor sei lidar bem e aparar o chifre dos meus demônios é atividade cotidiana, que a rotina tornou simples. É pelas pequenas angústias dela, entretanto, que me desespero.

Com o passar dos anos, fui aprendendo que às vezes não existem palavras certas e ela foi aprendendo a sonhar. Mas me faltou aprender que, apesar da imagem do bebê rosa ainda me perseguir, ela é forte e que também sabe lidar com as dores do dia a dia.

(Para falar bem a verdade, não sei se esses acontecimentos existem fora do campo das minhas tantas memórias inventadas. Isso pouco importa e repito sempre para quem quiser ouvir: o meu compromisso com a realidade segue a lógica da minha realidade inventada.)

 

Continue Reading »

Do Norte

izabel fontes December 10th, 2007

O problema de andar pelo mundo guiada por uma bússula que sempre aponta para o Norte é essa necessidade de sempre ir para a frente. O pequeno objeto de metal não entende, mas às vezes é preciso recuar. Assim como é preciso olhar para os dois lados e se valer do benefício da dúvida. Se esbaldar do erro, das delícias de não ter rumo.

-

A estrada, mesmo que o Norte seja o destino, é sempre cheia de curvas e, no meio dessas curvas, há muito pouco tempo para se desfazer do passado.  No meio de tantas voltas, até o ponteiro do relógio, acostumado a correr em círculos, se confunde e acaba misturando o que já foi com o que ainda é.

E quando o passado acaba misturado no presente a gente vai acumulando. Poeira dos (des)caminhos, folhas secas, algumas lágrimas, flores, pedras, restos de papel, cartas rasgadas. E no fundo da bolsa, alguns amores. Naturalmente.

State of emergency

izabel fontes December 3rd, 2007

Eu raramente durmo à noite. Por isso, para ter a dose necessária de irrealidade, preciso deixar a caixa onde se escondem os sonhos aberta o dia inteiro. Como tudo na vida, é um hábito de vantagens e desvantagens.

Acontece que, às vezes, tenho o pensamento invadido por um desses despropósitos típicos de quem sonha. Nessas horas, acabo me perdendo de leve e me afastando uns poucos milímetros do local ao qual pertenço no universo. Seria inofensivo e até passaria despercebido, não fosse o mundo um lugar tão cheio de ordem e leis inegociáveis. Para me punir e evidenciar o meu desvio da rota, sobram pelo meu corpo os hematomas dos encontrões que dou em qualquer coisa sólida que se coloque, por acaso, na minha frente.

É por isso que, durante o dia, derrubo coisas, esbarro em móveis, tropeço em lugar nenhum. Não é que eu seja distraída, ou desastrada, nada disso. É somente que sonho demais e o mundo, com tantas quinas e tanta solidez, não foi feito para quem vive perdida em devaneios.

.

izabel fontes December 2nd, 2007

Entre Desatino do Sul e Desatino do Norte, nos resta a tentativa. E a esperança. Porque de palavras certas se constroem os sorrisos. E eles por aqui, nesses dias, não estão faltando.