Esconderijo
izabel fontes December 15th, 2007
Quando eu tinha 3 anos e alguns meses, a minha irmã nasceu.
Eu não lembro bem dos momentos antes do nascimento, da barriga grande da minha mãe, das atenções que meu pai deu a alguém que ainda nem existia. Mas eu lembro bem do dia que ela chegou em casa: um bebê grande, com muito cabelo e colorindo tudo ao redor de rosa.
Na ficção da minha vida, a minha irmã chegou trazendo silêncio em casa. Era preciso sempre tomar muito cuidado e andar somente com a ponta dos pés. Hoje a gente já sabe, pode cair o mundo que LuÃza não vai acordar. É que poucas coisas ela faz tão bem quanto dormir. Mas naquela época ninguém sabia disso e era preciso não interromper os sonhos de quem ainda estava aprendendo o que é o mundo, para depois poder aprender como é que se sonha.
Em um desses dias silenciosos, decidi que talvez precisasse de um pouco de som. Decidida a nunca mais voltar, do alto dos meus quase 4 anos, corri para o quintal com cheiro de goiaba da minha casa. Meus pais, ao me acharem horas depois, encolhida dentro de uma caixa de papelão e abraçada com meu cachorro de pelúcia, tiraram uma foto e atribuiram tudo ao ciúme natural de quem deixa de ser filha única assim, sem aviso prévio e com pouca idade.
Mas eu insisto em dizer: a fuga era somente porque eu não conseguia mais lidar com ausência tão grande de ruÃdos.
16 anos e alguns meses depois, eu aprendi a lidar com os possÃveis silêncios que têm existência necessária no meio da convivência. Hoje em dia, sem dizer palavra, torço, cruzo os dedos, assisto as descobertas boas e só quero o bem. Entretanto, como era de se esperar, dentre todas as lacunas de som, são as de sofrimento as mais difÃceis. Mas não o meu sofrimento, que com a minha dor sei lidar bem e aparar o chifre dos meus demônios é atividade cotidiana, que a rotina tornou simples. É pelas pequenas angústias dela, entretanto, que me desespero.
Com o passar dos anos, fui aprendendo que às vezes não existem palavras certas e ela foi aprendendo a sonhar. Mas me faltou aprender que, apesar da imagem do bebê rosa ainda me perseguir, ela é forte e que também sabe lidar com as dores do dia a dia.
(Para falar bem a verdade, não sei se esses acontecimentos existem fora do campo das minhas tantas memórias inventadas. Isso pouco importa e repito sempre para quem quiser ouvir: o meu compromisso com a realidade segue a lógica da minha realidade inventada.)