Archive for April, 2008

izabel fontes April 19th, 2008

É abril e faz sol em Recife. E faz também muito calor. A cada dia que amanhece seco, com o céu de um azul perfeito, fico com a sensação de que tudo está somente suspenso e passo as horas esperando pela chuva. Mas parece que a segunda estação do ano resolveu mesmo se atrasar. Do lado de cá, tenho a vida também suspensa.

cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é

izabel fontes April 15th, 2008

É preciso aprender a lidar com os pequenos e grandes traumas, com as raivas do dia-a-dia, as frustações corriqueiras, os dissabores inevitáveis e as desilusões que vão e vem. É, algumas pessoas fazem terapia. Eu faço boxe.

Das memórias (re)inventadas

izabel fontes April 11th, 2008

Eu nunca tive somente um diário. Eu sempre tinha dois ou três ao mesmo tempo, todos devidamente trancados com cadeados.

Um deles, era da minha vida e lá estava tudo o que eu fazia, comia, pensava. Outro, que nem sempre existia, eu dividia com as amigas e era lá que estavam declarações de amor ao escolhido da sala (porque até as paixões eram compartilhadas antes de experimentar o ineditismo dos doze anos, explicarei) e fofocas do dia-a-dia. O terceiro era tão constante quanto o primeiro e era lá que eu escrevia de vidas que não eram minhas, mas que poderiam ser. A verdade é que sempre perdi tempo demais imaginando. E a minha imaginação sempre andou de mãos dadas com palavras. Por isso, sempre fui dada à solidão e escrevia ou lia enquanto as pessoas ao redor brincavam.

Mas o hábito de escrever diários foi abandonado rápido, tão rápido quanto as mudanças de quem chega aos doze anos. Quando se tem doze anos, nenhuma palavra serve, em absolutamente nenhuma língua que já existe. (Os dialetos inventadas também não ajudam e talvez seja nessa fase que se abandone os códigos que guardaram todos os muitos segredos da infância.)

É que se sente tudo demais quando se tem doze anos. E é tudo inédito, não dá para colocar em palavras. Então, a gente grita, chora, arranca os cabelosm, se desespera com a incompreensão. Mas, sobretudo, espera. E o tempo passa, e a gente aprende que as coisas não são tão inéditas assim e a descoberta de uma espécie de jurisprudência de sentimentos leva embora a sensação de solidão que impera no início da adolescência. Tudo se torna mais suportável.

Vácuo

izabel fontes April 10th, 2008

Faz uma semana que tudo o que eu escuto, dia e noite, é divagações sobre vídeogame. Mais especificamente, sobre o tal do PlayStation 3. Ok, eu sei que é blu-ray, os controles não têm fio e é tudo super moderno e genial, mas na arte de falar sobre joguinhos eletretrônicos isso é só o começo. Vale tudo: de como os gráficos são lindos e reais, de como vai ficar ótimo no home theater, trailer de jogo (sim, isso existe, minha gente: trailer de jogos, vários trailers do mesmo jogo), especulações sobre que jogos comprar e por aí vai, até crise nervosa de ansiedade pela chegada do correio está nesse pacote.

Eu achava que o pior já tinha passado. O que é a inocência da pessoa, não é? Apesar da maldade generalizada do mundo, teimo em acreditar na bondade da raça humana.

Pois o maldito videogame chegou hoje.  Desde então, deixei de existir, estou sendo completamente ignorada. Faz três dias que eu não vejo o namorado e desde ontem a gente combinava de ser ver. Mas, no meio do caminho, tinha um playstation. Tinha um playstation no meio do caminho.

Às três horas da tarde eu liguei, depois de o telefone tocar muito, eu escuto uma voz super animada do outro lado, dizendo que não pode falar muito porque tá configurando o ps3 que tinha acabado de chegar. Quem sou para competir, né? Desliguei o telefone e fui cuidar da vida.

Agora, às seis e meia, eu ligo de novo. Ninguém atende. Um tempo depois,  ele retorna e pegunta se tá tudo bem. Eu falei que sim e tentei de tudo: de manha a ameaça. Nada funcionou. Resumindo tudo: estou morrendo de ciúme de um joguinho eletrônico. Pode uma coisa dessas?

Meu nome quase foi Isaura

izabel fontes April 8th, 2008

O meu nome nasceu de um sonho da minha mãe. Ou, melhor ainda: de uma ameaça recebida enquanto dormia por uma mulher recém-saída da adolescência, sozinha em um país estranho e que se descobriu grávida. A intenção era me batizar com o nome da minha bisavó, Isaura. Mas a mulher forte, de família humilde, alertou na forma de miragem que nome é coisa séria e às vezes até pode servir como destino na vida e o destino da minha bisavó, infelizmente, havia sido sofrer.

Recebi então o nome da minha avó, Izabel, que tinha a força da mãe, mas uma vida menos difícil, com as vitórias aplacando dores. Não sei se nome é realmente destino na vida, como acreditava dona Isaura, mas, sabendo a origem do meu, torço para isso estar certo. É verdade que tive ainda mais sorte que a minha avó e assim precisei de menos luta para ter liberdade, chance de estudar e alguma tranqüilidade.

Ainda assim, tento ter tanta força quanto ela. A minha avó fugiu do interior para estudar, aprendeu a ler sozinha com quase doze anos e foi pedir escola para os patrões do irmão mais velho. Ainda que a internet não tenha me permitido o costume de ler enciclopédias, com a minha avó ainda hoje faz à noite, na mesa da cozinha, com ela aprendi a pesquisar sempre mais e tomei gosto pelas letras, primeiro pelos contos de fadas, depois por qualquer história, fantástica ou não.

Quando era pequena, brincava de professora e achava que tinha um destino muito certo. Ensinava minhas bonecas, meus primos, minha irmã, sempre com ar muito sério e posso garantir que todas as minhas bonecas sabiam fazer contas e ler. Algumas coisas mudaram, outras nem tanto. Não fiz pedagogia, nem letras, mas já ensinei e ainda quero compartilhar conhecimentos em sala de aula ou fora dela, mas sei que isso pode ser feito sem ser uma profissão.

Meu gênio forte não vem do nome, tenho certeza. A calma e a docilidade da minha avó não herdei, as minhas certezas e pontos de vista algumas vezes vêm cercados de alguma falta de paciência. Mas estou aprendendo e também respirando melhor, assim, qualquer excesso vai sendo deixado para trás. Com isso aprendi que nome não é destino na vida. Na minha vida, foi exemplo. E pensando melhor, acho que também poderia me chamar Isaura.

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