Das memórias (re)inventadas

izabel fontes April 11th, 2008

Eu nunca tive somente um diário. Eu sempre tinha dois ou três ao mesmo tempo, todos devidamente trancados com cadeados.

Um deles, era da minha vida e lá estava tudo o que eu fazia, comia, pensava. Outro, que nem sempre existia, eu dividia com as amigas e era lá que estavam declarações de amor ao escolhido da sala (porque até as paixões eram compartilhadas antes de experimentar o ineditismo dos doze anos, explicarei) e fofocas do dia-a-dia. O terceiro era tão constante quanto o primeiro e era lá que eu escrevia de vidas que não eram minhas, mas que poderiam ser. A verdade é que sempre perdi tempo demais imaginando. E a minha imaginação sempre andou de mãos dadas com palavras. Por isso, sempre fui dada à solidão e escrevia ou lia enquanto as pessoas ao redor brincavam.

Mas o hábito de escrever diários foi abandonado rápido, tão rápido quanto as mudanças de quem chega aos doze anos. Quando se tem doze anos, nenhuma palavra serve, em absolutamente nenhuma língua que já existe. (Os dialetos inventadas também não ajudam e talvez seja nessa fase que se abandone os códigos que guardaram todos os muitos segredos da infância.)

É que se sente tudo demais quando se tem doze anos. E é tudo inédito, não dá para colocar em palavras. Então, a gente grita, chora, arranca os cabelosm, se desespera com a incompreensão. Mas, sobretudo, espera. E o tempo passa, e a gente aprende que as coisas não são tão inéditas assim e a descoberta de uma espécie de jurisprudência de sentimentos leva embora a sensação de solidão que impera no início da adolescência. Tudo se torna mais suportável.

3 Responses to “Das memórias (re)inventadas”

  1. SombradeSonhoson 11 Apr 2008 at 3:26 pm

    Você não era a única… eu sempre tive vários diários, cada um com uma finalidade diferente… o meu diário mesmo, onde eu escrevia tudo o que me acontecia, o que estava pensando e sentindo, era um cadernão desses de 400 folhas, pq eu realmente adorava escrever nele. Tinha um que eu usava para levar na escola, e os meninos da sala viviam roubando ele, portanto eu o usava para revelar coisas que gostaria que as pessoas soubessem sem que eu tivesse que falar… hahahah
    Ô meus 12 anos…

  2. lucason 14 Apr 2008 at 5:18 pm

    eu escrevia horrores quando era mais novo. enchia folhas e mais folhas aleatórias de diversos cadernos com desenhos toscos, frases colhidas de músicas de legião urbana, historietas inventadas a partir de encontros casuais com pessoas diferentes ou mesmo saídas de meus sonhos (pesadelos, mais — na época eu tinha muitos deles). acho que tenho alguns deles aqui ainda, alguns daqueles rabiscos divertidos. haha.

    é, 12 anos e meu primeiro choque também. e durou um tempããão.. ;P

    ;***

  3. Fataon 14 Apr 2008 at 10:43 pm

    engraçado como os doze anos são os mais registrados
    eu escrevia cada coisinha terrível
    mas eu tinha outros cadernos tbm
    escrevia historinhas interessantes desde os 9 :D
    pena que eu era mt pequena pra pensar em guardar
    e meu pais nem tiveram essa idéia…
    mas enfim, tbm tive vários diários e nunca acompletava todos so dias
    largava-os no meio do ano.

    e ó, nem te respondi pelo orkut ainda
    sempre acho que tu merece respostas bem formuladas :B
    mas ó, por aqui serve também =*

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