O tempo que sobra
Sempre fui acostumada a morrer de agonia.
É uma aflição enorme por mim, pelos meus, por detalhes, pelas possibilidades de erros, pelas possibilidades de acertos, por sei lá o quê. Planejando a agonia inevitável do arrastar das horas, eu fui me fazendo adiar as decisões, adiar as resoluções para que as horas finais fossem totalmente preenchidas e assim não sobrasse tempo ou disposição para a tal da aflição. Seguindo essa cartilha, é sempre muito fácil manter a calma. Sempre muito fácil.
E vou viajar amanhã e não troquei o dinheiro, não comprei umas camisetas básicas e uns shortinhos que me impeçam de morrer de calor, não arrumei uma bolsinha pra colocar o dinheiro por baixo da roupa. É engraçado lembrar que se eu me perco em desorganização como forma de lutar contra qualquer espera, meu pai se perde em organização demais. Listas, pastas de documentos, passo a passo de como resolver tudo. Antes de ir pro Uruguai, domingo passado, ele repassou comigo ítem por ítem de cada coisa que eu teria que fazer e eu prometi portudoqueémaissagrado resolver tudo direitinho.
A verdade, papai, é que costumo lidar bem com o tempo que falta, com a correria. Já o tempo que sobra me desconserta e só de pensar na espera, morro de tédio. E morro de medo de morrer de tédio.